Pastagens sustentáveis: um sonho possível Brasília, DF

Pegando uma carona no famosíssimo discurso do Nobel da Paz Martin Luther King, em que disse: "I have a dream", se referindo ao sonho de ver, um dia, os direitos da minoria negra serem reconhecidos e respeitados pela sociedade americana, quero dizer que eu também tenho um sonho. O sonho de ver por onde eu passar, apenas pastagens magníficas, conservadas, diversificadas, arborizadas e produtivas. Analise este artigo abaixo.

Haná Japanese Food
(61) 3242-7331
CLS 408 BL B, Lj 35
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Cantina Da Massa
(61) 3226-8374
CLS 302 BL A, Lj 4
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Aabb-associação Atlética Banco do Brasil
(61) 3223-0078
Sces Tr 2, s/n, lt 16
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Cafe Cancun
(61) 3327-1451
SCN Qd 2 BL D, s/n Lj 52; Liberty Mall
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Aero Clube de Brasília
(61) 3225-9811
Sgas 903, Lt 77
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Centro de Treinamento Esgrima Brasília
(61) 3242-5497
Sces Tr 1, s/n, lt 3
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Dragon King
(61) 3328-4030
SCN Q 5 BL A, Brasília Shopp Lj 223
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Le Français Restaurant
(61) 3225-4583
CLS 404 BL B, Lj 27
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Fuji sushi
(61) 3224-6255
SCS Q 7 BL A, Lj 64
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Brasília Clube de Xadrez
(61) 3274-5375
Scrn 706/707 Bl D, s/n, en 12, s 301
Brasilia, DF

Dados Divulgados por
Dados Divulgados por

Pastagens sustentáveis: um sonho possível

Pegando uma carona no famosíssimo discurso do Nobel da Paz Martin Luther King, em que disse: "I have a dream", se referindo ao sonho de ver, um dia, os direitos da minoria negra serem reconhecidos e respeitados pela sociedade americana, quero dizer que eu também tenho um sonho.

O sonho de ver por onde eu passar, apenas pastagens magníficas, conservadas, diversificadas, arborizadas e produtivas, onde animais se alimentam, se protegem e, por que não, se divertem, em um ambiente quase edênico, como disse o meu querido irmão Judismar, se referindo às cabriolices da vaca Marruda na Pastagem Ecológica da Fazenda Ecológica, em sua contribuição para o meu último livro.

Ainda criança eu já sonhava trabalhar na área agrícola. Minha primeira experiência na área, foi ao ajudar minha mãe na nossa horta doméstica. Lembro-me como eu ia alegremente buscar estrume de gado nas fazendas vizinhas e como a ajudava irrigar as verduras, com água tirada de um profundo poço com balde, corda e manivela.

Quando fiquei sabendo da existência do Curso de Agronomia, meu sonho passou a ser me formar e trabalhar como profissional nesta área.

Durante o curso de Agronomia feito na UFV, de 1968 a 1971, a cada semestre eu me apaixonava por alguma matéria, sempre espelhado em algum professor admirável. Já na "diversificação" em Zootecnia, fui definitivamente "fisgado", pela forragicultura, pelo exemplo do profº Rasmo Garcia, sob cuja orientação preparei e apresentei para a turma um seminário sobre o, na época revolucionário, capim Brachiaria. Ainda na UFV, tomei conhecimento do Pastoreio Racional Voisin, através de um texto quase clandestino, que falava resumidamente das 4 leis do Pastoreio Racional de André Voisin, e relatava exemplos de sucesso na sua aplicação, entre elas a Fazenda Conquista, do pioneiro Nilo Romero. A partir daí, nasceu em mim e nunca mais se extinguiu, o sonho de conhecer melhor este sistema revolucionário e adota-lo como linha mestra para o meu trabalho.

A primeira tentativa de implantação do Pastoreio Voisin foi numa pequena propriedade comprada em 1973, em Jaurú, em plena Amazônia mato-grossense. O meu primeiro projeto Voisin, que ainda guardo como relíquia, acabou não sendo implantado, pois o banco não aceitou nos conceder o financiamento necessário.

Com isto o sonho de implantação do Pastoreio Voisin ficou postergado até a aquisição da Fazenda Ecológica, próxima 100 km de Cuiabá, ocorrida em 1.987.

Fazenda Ecológica: início da concretização do sonho

A aquisição, em 1987, de uma área de cerrado nativo localizada no município de Nossa Senhora do Livramento, na baixada cuiabana, depois batizada de Fazenda Ecológica Santa Fé do Moquém, foi o início da concretização de um sonho não só meu, mas também dos meus irmãos e sócios Judismar Clemente Melado e Cláudio Mellado. O nosso sonho naquela época era a implantação de uma fazenda onde a premissa básica fosse o emprego do Pastoreio Voisin e o respeito pela natureza.
Desde o início, resolvemos não usar desmatamentos, queimadas e arações da terra na formação das pastagens. O resultado foi o que passei a chamar de Pastagem Ecológica ou Sistema Voisin Silvipastoril. O próximo passo foi a formalização e divulgação da Pastagem Ecológica, que acabou se tornando sinônimo de pastagem sustentável, sendo tema de inúmeros artigos, livros, videocurso, reportagens em jornais e revistas e programas na TV.

A Pastagem Ecológica já está se tornando uma política pública, fazendo parte das estratégias de importantes programas institucionais e governamentais voltados para o desenvolvimento sustentável e sendo aplicada por produtores particulares em diversas partes do país. A Fazenda Ecológica, por conta do sucesso da Pastagem Ecológica, se tornou uma unidade demonstrativa de técnicas agroecológicas, com ênfase na Pastagem Ecológica e o Pastoreio Racional Voisin. Com a Fazenda Ecológica tive a certeza de que uma pastagem sustentável, produtiva e em equilíbrio com a natureza era um sonho não só possível como também facilmente alcançável.

O maior problema da pecuária: no manejo convencional, ainda predominante, a pastagem não é sustentável

O pastoreio contínuo no qual os animais ficam na mesma parcela de pastagem um período longo e indefinido, é o grande vilão da pecuária. Com este sistema de manejo (ou ausência de manejo), é comum o superpastejo quando as forrageiras são submetidas a desfolhamentos sucessivos, sem que lhes seja dada, após cada período de pastejo, um período de descanso, necessário à recomposição dos estoques de substâncias de reserva, que permitem o seu adequado desenvolvimento. Isto provoca uma redução progressiva do porte das forrageiras, levando ao aparecimento de locais com o solo descoberto (carecas), o que potencializa o efeito da erosão, tanto pela chuva quanto pelo vento. Mais uma vez ocorre uma aceleração do processo de degradação, levando em pouco tempo a uma situação limite intolerável, que requer uma providência drástica, que é a reforma completa da pastagem. Fechando assim um ciclo pernóstico de formação - degradação - reforma das pastagens, que acredito ser o principal fator de descapitalização dos produtores pecuaristas, que são obrigados a gastar periodicamente em reformas perfeitamente evitáveis, parte significativa dos lucros obtidos nos anos anteriores.

Degradação das pastagens: um problema generalizado

A degradação das pastagens está rapidamente se tornando um problema em escala mundial. Em alguns locais, principalmente na África e na Ásia, mas também em diversas regiões do Brasil, México e até dos Estados Unidos, o problema é tão grave que a conseqüência é a desertificação que avança de forma alarmante sobre as áreas de pastagens. A situação no Brasil é bastante grave, onde em praticamente todas as regiões, já é muito preocupante o estado de degradação das pastagens. Em minhas viagens, tenho tido oportunidade de ampliar muito a minha coleção de fotos (tanto indesejada, quanto educativa!) de pastagens degradadas.

Num trecho de rodovias que percorro frequentemente, entre Guarapari ES e Viçosa MG, grande parte das pastagens está em estágio avançado de degradação, principalmente nos morros. As poucas que parecem em bom estado, apresentam sinais de recente reforma ou de pouco uso. Deixa-me às vezes transtornado ver tanta degradação onde, por meio de uma simples mudança de atitude (e, é claro, da aquisição de conhecimentos e de um pouco de investimento bem dirigido), poderiam existir pastagens em bom estado, sustentáveis e produtivas. Isto aviva ainda mais o meu sonho.

Unidades Demonstrativas de Manejo Sustentável de Pastagem: ver para crer

Como viajo muito entre Guarapari - ES e Viçosa - MG, eu tinha grande interesse em implantar unidades demonstrativas ao longo deste percurso. Isto já está acontecendo, com projetos nos extremos (Guarapari e Viçosa) e no meio do caminho, Itaperuna - RJ. O projeto da "Fazenda Ecológica Rancho Novo" de Guarapari, cuja implantação ocorreu a 2 anos, já apresenta resultados surpreendentes, tanto na recuperação das pastagens, quanto no aumento da produtividade. Os outros dois projetos, com menos de 1 ano de implantação, já apresentam sinais claros de evolução sobre a situação inicial.
Estas UDs já se encontram disponíveis para visitação, sendo que os interessados em visita-las deverão entrar em contato conosco para as orientações necessárias.

Recuperação Racional de Pastagens Degradadas

No conceito convencional é comum para recuperação de pastagens, a completa mecanização do solo, adubação e novo plantio da forrageira. Será que toda a área a ser recuperada necessitaria deste tratamento drástico e oneroso? Na realidade, as pastagens não se degradam de forma homogênea, sendo mais provável que a maior parte da pastagem possa ser recuperada apenas com um manejo adequado, que dê às forrageiras condições de se recuperarem naturalmente. Porém, se não houver divisões na pastagem, como tratar de forma diferente as partes em diferentes estágios de degradação?

Já a reforma racional de pastagens, começa exatamente pela sua adequada divisão, de forma a permitir o manejo racional (Pastoreio Racional Voisin). Com a pastagem dividida em parcelas, podemos racionalizar o processo de recuperação, dando a cada setor da pastagem o tratamento adequado. Com este esquema, a maior parte da pastagem é recuperada apenas com o manejo adequado e alguma intervenção leve, sendo reservado apenas para as áreas com degradação mais severa, um tratamento mais intensivo, que em casos extremos poderá ser até a reforma completa, com mecanização do solo e novo plantio das forrageiras. Neste sistema a maior parte dos custos da recuperação das pastagens recaem sobre a construção das cercas elétricas (de baixo custo). E o gasto em cercas é um investimento em infra-estrutura que será realizado apenas uma vez, possibilitando o manejo racional que resultará na recuperação, na elevação da produtividade e na sustentabilidade da pastagem.

Um sonho compartilhado por muitos

Quando um grande sonho se manifesta em apenas uma pessoa, dificilmente se tornará realidade. Não é o caso do meu sonho sobre pastagens sustentáveis. Este não é apenas um grande sonho, mas a missão de vida de um número cada vez maior de pessoas. Eu não me arriscaria numa listagem abrangente destes "sonhadores", mas não posso me furtar de citar alguns nomes expressivos: a começar pelo próprio André Voisin, formalizador do Sistema de Pastoreio Racional, que dedicou boa parte de sua vida para provar ao mundo que o sonho da pastagem sustentável era factível. Infelizmente, o Mestre faleceu precocemente em 1964, na capital Cubana, quando iniciava a divulgação de suas idéias pelos trópicos e apenas 7 anos após publicar o principal livro de sua magnífica obra: "Produtividade do Pasto". Em 1965, ocorreria a primeira visita de Voisin ao Brasil. Caso a visita do Voisin tivesse acontecido, ele encontraria aqui outro grande sonhador, o Eng. Agr. Nilo Ferreira Romero, que já em 1963, implantou o "Projeto Voisin" pioneiro no Brasil, em sua Fazenda Conquista (Bagé - RS), que continua após mais de 40 anos, sendo o principal testemunho da sustentabilidade das pastagens. Daqui do Brasil, eu poderia citar ainda, apenas dentre os autores de obras sobre o tema, outros sonhadores, como Humberto Sorio Jr., André Sorio, José Carlos Lyra Fleury e Ana Primavesi. Outros destaques são: Arno Klocker Hornig, do Chile; Edgardo José Vanoni, da Argentina; Guillermo Lebrón do Paraguai e Pedro Pablo Del Poso Rodrigues de Cuba. Até nos Estados Unidos, já despontam alguns sonhadores, aqui representados por Bill Murphy e Allan Savory, que são cada um do seu modo, grandes divulgadores do Pastoreio Voisin naquele país.

Para não faltar com a justiça, preciso citar também outras pessoas influentes, que apesar de não serem autores ou consultores na área específica do Manejo Sustentável de Pastagens, têm apoiado no âmbito de suas instituições e programas o sonho da divulgação do conceito de pastagens sustentáveis. São eles: Sérgio Henrique Guimarães e Jean Carlo Corrêa Figueira, do Instituto Centro de Vida - ICV (www.icv.org.br); Antônio Cláudio Horta Lisboa Barbosa (Tony), do Instituto Pro-Natura (www.pronatura.org.br); Peter May e Jean Dubois, da Rede Brasileira Agroflorestal - REBRAF (www.rebraf.org.br); Marília Carnhelutti, Rildo Eburnio e Heitor David Medeiros, do Instituto Floresta (www.institutofloresta.org.br); Roberto Bianchi, da Cooperação Italiana e do "Programa Fogo" (www.embitalia.org.br) e o Profº Steve Vosti, da Universidade da Califórnia - USA (vosti@primal.ucdavis.edu).

Agora, para citar nominalmente a legião de produtores que acreditando no PRV, estão contribuindo com a expansão do Manejo Sustentável de Pastagens, com a implantação projetos em suas propriedades sob a orientação de dezenas de consultores, faltaria espaço neste artigo. Para representá-los, citarei apenas um, o meu primeiro cliente, meu médico de confiança, maior incentivador e grande amigo, Dr. José Alberto Alves, de Cuiabá MT.

O que falta para ser definitivamente reconhecida a possibilidade de Pastagens Sustentáveis?

No meu entender, o que ainda falta hoje é o mesmo que faltou nestas quatro décadas desde a implantação do primeiro projeto Voisin pelo Dr. Nilo Romero: a disposição das grandes universidades e dos institutos oficiais de pesquisa de promover estudos e ensaios sobre os vários aspectos do Pastoreio Racional Voisin e de procurar também fora de seus muros os conhecimentos comprovados pela evidência do sucesso em campo em inúmeros projetos de Pastoreio Voisin espalhados por todo o país.

As mais importantes universidades do país, tendo entre raras e honrosas exceções, a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade de Passo Fundo RS, ignoraram solenemente os conhecimentos agregados na rica obra de André Voisin. Estas universidades não tiveram pelos livros do André Voisin o merecido interesse. São raras as publicações sobre manejo de pastagens originadas nestas universidades, que cite algum livro de Voisin ou de outro autor voisinista em sua bibliografia. Com isto, inúmeras gerações de Agrônomos, Veterinários e Zootecnistas saíram e continuam saindo destas universidades, desconhecendo que o principal fator que concorre para a degradação ou para a produtividade e sustentabilidade de uma pastagem é o sistema de manejo utilizado.

Os institutos de pesquisa que neste mais de 40 anos deixaram de considerar o Pastoreio Racional Voisin em seus projetos de pesquisas, caso o tivessem feito, poderiam ter dado ao país um presente de valor incalculável, que com certeza teria colocado a mais tempo a pecuária do Brasil em destaque mundial.

Mas ainda há tempo para uma correção de rumo. E eu sinto que isto já está acontecendo, por conta do crescente número de técnicos, professores e pesquisadores mais conscientes, que já consideram irreversível a marcha da agroecologia e vêem nela a única garantia para a sustentabilidade da produção de alimentos e outros produtos agrícolas, sem pagar o alto preço da destruição do planeta. Como o Pastoreio Racional Voisin é por excelência uma tecnologia agroecológica, fatalmente acabará tendo a atenção que merece, tornando possível a concretização do meu grande sonho!

(∗) Jurandir Melado é Eng. Agr. (UFV, 1971),
Professor (aposentado) da UFMT, Consultor e autor de livros sobre Manejo Sustentável de Pastagens.

Nota: É proibida a reprodução deste texto em qualquer veículo de comunicação sem a autorização expressa do autor. Só serão permitidas citações do texto desde que acompanhadas com a referência/crédito do autor.

Fonte: ∗Jurandir Melado

Clique aqui para ler este artigo na Portal Agricultura